Em 1926, Adolph Zukor era o empresário de cinema mais ambicioso e tinha o maior e mais bem-sucedido estúdio, a Paramount. Zukor também contratara o produtor independente BP Schulberg, um olho infalível para novos talentos, para assessorar nos projetos. Jesse L. Lasky , seu sócio , procurava um filme para próxima turnê.
Em fevereiro de 1926, G. P. Putnam, amigo de Lasky, - famoso editor de Nova York e futuro marido de Amelia Earhart - , trouxe ao seu escritório o escritor John Monk Saunders para falar de um novo projeto. Ele apresentou Wings (Asas) seu grande romance, com importantes batalhas aéreas.
Lasky sentiu imediatamente afinidade com o projeto, posteriormente também com o roteiro e planejou que seria seu grande filme itinerante de 1927. Porém, ao propor a Zukor ele disse: Você está louco? Não vamos colocar centenas de dólares num filme sobre pilotos e aviões: pontinhos no céu”. Mas depois de algumas argumentações o projeto foi aceito.
Eles sabiam que precisaria de muito dinheiro para aviões e figurantes e o estúdio não dispunha. Foram buscar ajuda no governo, em Washington, sem resultado. Mas os relações públicas do governo os enviou para o Exército, que manifestou interesse. Na época o Exército dos EUA estava procurando qualquer veículo para mostrar sua força, suas glórias de conquistas passadas e percebeu que essa era a grande oportunidade.
Lasky colocou o projeto na linha de pré-produção. E logo no início perceberam que as filmagens haviam de ser em San Antonio, Texas, pois ficava ao lado da Base Aérea Kelly, das instalações de treinamento e possuía um terreno de 5 acres para os cenários dos campos de batalha. Inclusive, como seria um filme épico de guerra exigia uma grande figuração e lá existia a maior guarnição dos EUA na época ( 8 a 10 mil soldados).
Estima-se que o exército forneceu cerca de 15 milhões de dólares em homens e serviços para o projeto. Segundo o historiador de cinema, Frank Thompson: “Pelos padrões de hoje seria o filme mais caro da história do cinema”.
O produtor B. P. Schulberg, responsável pela contratação do diretor William A. Wellman, também o indicou para dirigir o filme. Apesar dele ter dirigido apenas 11 filmes, a maioria faroestes do tipo B, Schulberg sabia que ele tinha vivenciado a guerra e tinha sido um ás da aviação, integrante da famosa: Esquadrilha Lafayette. Além disso servira na França (onde se passa a maior parte do filme) e fora também motorista de ambulância (profissão que a atriz principal exercera). Por tudo isso, o olhar de quem estivera lá e vivera as perdas da guerra, poderia ser especialmente interessante.
Lasky e Zukor a princípio não concordaram com a escolha, pois já que eles estavam no melhor estúdio achavam que a direção, desse grande projeto, tinha de ser com um dos melhores diretores da época. E eles tinham vários deles no estúdio, como Cecil B. DeMille, Allan Dwan, Victor Fleming, Malcom St. Clair. Mas B. P. Schulberg insistiu que o queria como diretor e no final eles cederam.
O diretor entrou já com 4 meses de pré-produção. Vários pontos já haviam sido definidos, inclusive a escolha de Clara Bow, maior estrela da Paramount e da época, como atriz principal. Wellman resolveu mudar as regras do jogo ao contratar um elenco de desconhecidos, inclusive para os papeis principais. Foram escolhidos Charles Buddy Rogers e Richard Arlen.
Wellman insistiu que um dos papéis muito importante do filme seria o do cadete White, de participação curta, mas decisiva e fez vários testes (com 35 atores diferentes, segundo sua biografia) até escolher Gary Cooper. Inclusive ele manteve o ator na locação durante toda gravação do filme.
Construíram um campo de batalha e uma vila francesa (com 35 edificações), vários cenários grandes, como um aeródromo alemão grande e outro aeródromo americano. Cavaram trincheiras. Instalaram torres, inclusive uma com mais de 100 metros, para cobrir a filmagem da aérea toda, usadas tanto para instalar câmeras, como para comunicação das tomadas. Além disso criaram todo o Campo de Batalha Saint-Mihiel.
Logo no início notaram que para dar sensação de vôo tinham de colocar a câmera no ar. O cinegrafista Harry Perry foi o primeiro a pensar que tinha de ter uma câmera na frente do avião e ter 2 cockpits. E para dar um clima de realidade, já que os aviões trepidavam absurdamente, foi necessário parafusar a câmera na fuselagem. E os atores tiveram de pilotar de verdade;
Os atores pilotavam e, ao mesmo tempo, tinham de regular a câmera automaticamente, para dar closes neles mesmo. E se não ficavam bons repetiam, e depois repetiam novamente.
Arlen felizmente havia sido piloto na Força Aérea Real do Canadá, embora sem muita prática, após algumas horas de vôo se adaptou melhor. Enquanto Charles Buddy Rogers, o Jack Powell, que nunca entrara num avião antes, teve de aprender do zero a pilotar. E com poucas horas de vôo já estava pilotando o avião, inclusive correndo risco de acidente ou morte. Há registros que toda vez que pousava ele vomitava, mas não desistia e decolava de novo. O que o fez ganhar uma imensa admiração do diretor.
Com seu conhecimento na aérea Wellman escolheu a realeza dos dublês do ar, Dick Grace, na época era a maior estrela. Além de vários pilotos da aeronáutica também. Sendo que os vôos em grupo foram todos feitos pela força aérea.
O Diretor exigiu ainda aviões que vieram dos mais diversos locais do país, bem como balões de observação que foram usados na 1ª guerra. Ao todo foram usados 220 aviões.
Houveram vários episódios instigantes durante a filmagem e o diretor, em sua biografia, registrou algumas histórias:
Uma vez, um dos pilotos, Jack Clarck, estava representando ser atingido e o avião caiu em espiral, mas ele deixou o avião descer a tal ponto, que todos que assistiam acharam que ele ia morrer. Pois só no último momento ele desviou o avião e o preparou para o pouso.
Dick sofreu o pior ferimento, entre os dublês pilotos, quando tinha de fazer uma manobra de pousar um avião e capotá-lo. Contudo, ao invés disso, ele colidiu a ponta do avião com o chão e quebrou uma vértebra do pescoço. Necessitava imobilizar com um colar cervical (que era de gesso na época), por um ano. Mas após 6 semanas ele tirou sozinho e foi para festa de confraternização do grupo.
No dia da filmagem da última batalha eles esperaram o sol ideal para filmar a cena. Foi quando o diretor apertou o botão dos explosivos, gritou “ação” e toda a guerra acontecia ao mesmo tempo. Segundo as memórias do próprio diretor, nesse momento, um dos financiadores, chegou na plataforma e o interrompeu, quando estava detonando as explosões e ele nem olhou para ele e falou” Saia dessa plataforma, seu filho da mãe, ou eu te mato” .
Depois ficou sabendo que era Otto Kahn, um dos grandes investidores do filme, que tinha investido com a Paramount para fazer o filme.
Quando Wellman ficou sabendo quem era, ficou muito chateado, foi para o quarto embriagar-se. Tinha certeza que as consequências seriam severas. Poucas horas depois, à noite, 3 banqueiros bateram na porta do seu quarto e, ao entrarem, ele tinha certeza que seria demitido. Mas eles disseram: Sr. Wellman, vimos o que fez hoje à tarde e estamos aqui para lhe dizer que o que precisar para terminar o filme, já tem. É uma garantia.
Em determinado período a filmagem ficou parada por 33 dias, pois já tinham terminado a filmagem de terra, as cenas internas seriam filmadas no estúdio e faltavam somente as cenas de batalhar no ar e não havia condições essenciais para visibilidade adequada: céu azul e muitas nuvens brancas. Eles tentaram nuvens falsas, sem sucesso.
O estúdio não entendia o por quê deles não filmarem, já que não tinha chuva, e ficaram extremamente irritados por causa das despesas de locação. A tenacidade do diretor para suportar a pressão deve ser aplaudida, pois gerou imagens únicas para época. Ele sabia que não importa as intenções, mas sim o que está registrado. E ele buscou o registro perfeito, mesmo lhe custando caro.
Lucien Hubbard era o produtor do projeto todo e ele acompanhava tudo, ele que tentou amenizar o clima de tensão constante entre o diretor furioso e a irritação do estúdio. No final o estúdio pensou seriamente em demitir o diretor, mas desistiram pois se outro diretor assumisse, para manter o projeto, poderia haver um grande prejuízo de tempo e qualidade da obra e recomeçar do zero geraria um gasto ainda maior para o estúdio.
Wellman resistiu e contrariou produtores e roteirista, não se importou muito com os atores, mas fez um grande filme.
As filmagens finais da batalha, com imagens em tempo real de balões e aviões no ar, com bombardeios, tropas se movimentando, tiros, tudo ao mesmo tempo seriam difíceis de fazer hoje, mas eram praticamente impossível naquela época. E geraram uma beleza da composição.
Depois dessa filmagem a Paramount não renovou o contrato com o diretor e ele ainda tinha de fazer a pós-produção do filme. O que fez com competência. Finalmente, assim que terminou o filme ele conseguiu renovar o contrato e seu salario mudou de 350 dólares para 1300 por semana.
Era raro um filme dos anos 20 ter uma produção que ultrapassasse 1 milhão, mas esse custou mais de 2 milhões e o estúdio ficou muito nervoso, temendo um fracasso.
Todavia, o filme foi um sucesso imediato, foi exibido mais de 2 anos, depois da estreia em Nova York, com orquestra completa, efeitos de som e Magnascope. Embora, ainda devido o ressentimento o estúdio não convidou o diretor para essa estreia, nem para entrega do prêmio da Academia, em que Zukor era um dos sócios fundadores.
Mas os críticos deram a Wellman o devido reconhecimento desde o lançamento.
Quando o filme estreou Gary Cooper virou um astro. Sua pequena cena o transformou numa sensação instantenea. E a partir daí ele se transformou no maior astro da Paramount e até de Hollywood.
Wellman, depois desse filme, foi subindo cada vez mais alto. No total fez 76 filmes, que tiveram 32 indicações ao Prêmio da Academia e ganhou 7 estatuetas do Oscar. Ficou conhecido também por filmes como: Nada é sagrado; Nasce uma estrela, Inimigo público, Beau Geste. Mas no final da vida ele disse: “O filme de que mais tenho orgulho é Asas".
PARA ENTENDER UM POUCO MELHOR O FILME:
A AVIAÇÃO NO PERÍODO DA 1ª GUERRA
Os países começaram a guerra usando balões para observação do campo inimigo, às vezes com câmeras. Mas logo pensaram que seria mais fácil : usar um avião para isso. No início somente aviões de observação para mapear o terreno e ver o que os inimigos estavam preparando. Até que um dos inimigos começou a mandar um avião de observação para perseguir o outro. Porém no começo só trocavam literalmente tijolos entre si, ou ganchos fixantes. Até que passaram a usar pistolas e rifles para atirarem um nos outros.
No entanto, os aviões no inicio da guerra tinham problemas estruturais e alguns até despedaçavam no ar. Começou-se com os aviões pioneiros, construções básicas de madeira com suporte de arame e tela, pois ainda não se dominava a tecnologia. Esses modelos trepidavam em excesso e era muito difícil pilotar, mirar e atirar com exatidão.
Até que um pioneiro francês da aviação chamado Roland Garros (sim, aquele que deu nome ao Torneio Internacional de Tênis de Paris), piloto de guerra, teve uma ideia melhor. Colocou uma metralhadora, fixada na frente do piloto, para que ele pudesse mirar melhor. Ainda viu a necessidade de colocar placas de aço na parte de trás das hélices, para desviar as balas lateralmente e não atingir a hélice.
Seu sucesso foi absoluto e em 2 semanas atingiu 5 aviões alemães. Até que a hélice, enfraquecida pelas balas, estraçalhou-se e o forçou a pousar. Sendo então capturado pelos alemães, que descobriram o mecanismo. Eles mostraram isso para Anthony Fokker que desenvolveu a engrenagem do interruptor que impedia que as balas disparassem enquanto a lâmina passava. O que depois evoluiu para metralhadora sincronizada que atira através da hélice.
Não havia aviões americanos quando a guerra começou. E os grandes combatentes eram alemães, franceses e ingleses. Porém evolução da aviação na segunda metade da guerra foi tão grande, que quase toda semana era lançado um novo modelo. No final da guerra eles se tornaram uma arma de guerra, feitas com tubulações de aço soldado.
Depois da descoberta do Roland Garros começaram as batalhas no ar, chamadas no meio de “brigas de cachorro . Embora no lugar de mordidas eles colocavam a vida em jogo. E os pilotos não chegavam a fazer 40 a 50 horas de treinamento com instrutor, até porque não se dispunha de instrutores experientes. Muitos deles aprenderam a pilotar sozinhos., pois eram colocados em situações de combate com tempo mínimo de vôo.
Na briga de cachorro não era um contra um, era briga de esquadrões. Mas a expectativa de vida de um piloto da I Guerra era de cerca de 2 semanas.
A sobrevivência se baseava em focalizar o outro piloto e matá-lo antes que ele matasse você. E quanto mais inexperiente, mais difícil era voar , encontrar o outro avião e conseguir atingí-lo, antes do inverso.
Um dos pais da briga de cachorro no ar foi Oswald Boelcke, piloto de caça alemão, que criou inclusive o “Dicto Boelcke,” regras para briga de cachorro e passava para todos os alemães; como ex; não batalhar contra o sol.
Na aviação, os aliados estavam em desvantagem., pois não tinham treinamento formal, nem os avanços tecnológicos. Foi dessa época o famoso ”abril sangrento” em que os alemães mataram 8 vezes mais pilotos britânicos, que o inverso.
Manfred von Richthofen, era o famoso ás da aviação alemã e foi colocado no comando de um esquadrão de aeronaves, o primeiro esquadrão de caça do mundo. E como tinha várias esquadras e cada uma de uma cor e ele podia escolher o seu esquadrão entre os melhores, geralmente era composta de um avião de cada cor, por isso recebeu o nome de Circo Voador.
Os EUA só ficaram os últimos 6 meses na I Guerra. Mas voaram em vários esquadrões, inclusive ajudaram a formar A Esquadrilha Lafayette, um Esquadrão da French Air Service (Serviço Aéreo Francês), da Aeronáutica Militar da I Guerra, composta em grande parte por pilotos voluntários americanos voando caças.
No entanto, os aviões, a mecânica, e os uniformes eram franceses, como era o comandante. Muitos desses pilotos voluntários eram estudantes de Harvard, jovens talentosos, com paixão por voar. Eles viram a guerra como maneira de aprender a pilotar e não ter que estar nas trincheiras.
Na época os Pilotos tinham um grande status, eram considerados o equivalente de um cavaleiro, portanto agiam e eram tratados como tais. Se um piloto famoso acertava outro piloto que era um oponente importante, por respeito costumavam ir ao seu funeral, mesmo em território inimigo. Não havia problemas, pois não havia luta naquele dia. Iam ao funeral, voltavam pro seu território e no dia seguinte a luta recomeçava.
Muito dos aspectos citados foram explorados e apresentados no filme “Asas” do diretor William A. Wellman, ex-piloto da Esquadrilha Lafayette. Como por exemplo: a Esquadrilha o Circo Voador, o respeito pelos pilotos, a evolução da aviação, o cavalheirismo dos pilotos alemães.
No filme aviões autênticos foram pilotados sob direção cinematográfica que compreendia que a autenticidade era importante. Por isso, no filme as nuvens eram legítimas, as manobras verdadeiras e os gestos autênticos.

